Por Eduardo Lúcio G. Amaral
Identidade é uma construção intencional, de conteúdo ideológico, que busca maiores ou menores conexões com a cultura. Sabemos que nem tudo que pertence ao universo da cultura interessa ser apropriado pelo discurso da identidade. Além de intencional, a idéia de Identidade também guarda um sentido instrumental: identidade que serve para um determinado propósito.
Não há como desvincular o estudo dos discursos acerca da Identidade (no caso, da identidade cearense) de uma imagética a ela relacionada. O discurso da identidade cearense surge na literatura e na historiografia, por volta da década de 1860 e, apesar das muitas reelaborações que vem sofrendo ao longo das décadas, guarda um fundo comum. Esse fundo comum está ligado à permanência de uma imagética relacionada ao mundo natural e à civilização sertaneja daí resultante.
Desde sempre, a literatura e a historiografia evocam um Ceará impregnado de natureza inóspita e hostil. Dela resulta uma civilização em que o homem tem, não somente que lidar, mas que lutar contra a natureza. Ele é, em última instância, visto como um resistente, “um forte”, diante da natureza ameaçadora.
Entretanto, por mais que envide esforços para essa resistência, o homem cearense (e sertanejo, e nordestino) nem sempre alcança o domínio completo sobre a natureza. Aliás, muito pelo contrário. Quando a estiagem, a seca, irrompe em toda a sua fúria, a desgraça humana se revela em toda a sua plenitude. É desta “calamidade climática” que nasce o imaginário brasileiro acerca do Ceará. Da mesma maneira, é este o Ceará que os cearenses divulgaram para o sul do país.
As imagens de miséria, abandono, fuga, desolação povoam a cultura brasileira quando se trata de falar do Nordeste e do sertão. Embora o Nordeste e o Ceará não sejam somente isto, o imaginário popular tem dificuldades de imaginar um outro Nordeste e um outro Ceará que não fossem somente isto.
A partir de meados da década de 1980, portanto há menos de trinta anos, a indústria do turismo estabeleceu-se definitivamente no Ceará. Como o turismo lida com bens de natureza simbólica, como projetar o sucesso do negócio num lugar impregnado por imagens negativas, de miséria e seca, tão vivas no imaginário do brasileiro médio?
Necessário foi criar uma nova identidade para o Ceará. Mas, dado estar fortemente criado o vínculo com a imagética das secas, criou-se uma nova estratégia: desvincular “Fortaleza” do “Ceará”.
A imagem de Fortaleza foi positivada através das várias campanhas publicitárias nacionais. Ao invés de capital da seca e da miséria, transformou-se numa cidade paradisíaca caribenha, com um povo afetuoso (indolente?), ingênuo (o mito do bom selvagem?) diante de uma natureza dócil e malemolente, crivada de coqueiros e ornamentada por um mar de eterno azul.
No próximo post vamos procurar compreender as repercussões desta construção ideológica no curso do planejamento do turismo no Ceará e, em última instância, na própria situação de Fortaleza e do Ceará perante o imaginário brasileiro.
Com enfoque no contexto SEMIÁRIDO cearense, este blog tem o objetivo de divulgar as idéias, as realizações, as pesquisas e as demais atividades do Grupo de Pesquisa formado pelos professores das ciências sociais, sociais aplicadas e ambientais do IFCE (Campus Quixadá).
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Alunos do IFCE Quixadá ganham nove bolsas da Funcap/CNPq
Os alunos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) – campus de Quixadá foram contemplados com nove bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio de edital da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
As bolsas foram concedidas na categoria Iniciação Científica Júnior, com o objetivo de despertar nos estudantes o interesse por desenvolver atividades de pesquisa e extensão na área de ciência.
Foram contemplados quatro projetos, dos cursos de Edificações e Guia de Turismo. Na primeira área, o projeto “Concreto com adição de resíduo de borracha de pneu para aplicações expostas ao ambiente, resistentes a variações térmicas elevadas” recebeu três bolsas. A orientação é do professor Francisco Alves da Silva Júnior.
Também para o curso de Edificações, foram concedidas duas bolsas, para o projeto “Avaliação e adequação de habitações autoconstruídas no município de Quixadá/CE”. A orientação é da professora Karinna Ugulino.
Já no curso de Guia de Turismo, cada projeto foi contemplado com duas bolsas. “Monitoramento das transformações socioespaciais no centro urbano de Quixadá” tem orientação do professor Alexandre Queiroz Pereira. “Determinação do potencial para a captação de água de chuva na microrregião do Sertão Central cearense” é o tema da pesquisa orientada pelo professor Lucas da Silva.
As bolsas têm vigência de um ano. A participação dos alunos nas pesquisas começou mês passado e prossegue até novembro de 2011.
Confira a relação dos alunos bolsistas:
• Adail Alves Saraiva Junior (Edificações)
• Amanda Lúcia André Sobral (Turismo)
• Fiama Emanuela de Sousa Barbosa (Turismo)
• Francisca Ádila Ferreira Pereira (Turismo)
• Francisca Fabrícia Teodoro (Turismo)
• Karla Loiola Maia Amaral (Edificações)
• Priscila da Silva dos Santos (Edificações)
• Sóstenes Saraiva de Sales (Edificações)
• Thamara Kely de Sousa Fernandes (Edificações)
As bolsas foram concedidas na categoria Iniciação Científica Júnior, com o objetivo de despertar nos estudantes o interesse por desenvolver atividades de pesquisa e extensão na área de ciência.
Foram contemplados quatro projetos, dos cursos de Edificações e Guia de Turismo. Na primeira área, o projeto “Concreto com adição de resíduo de borracha de pneu para aplicações expostas ao ambiente, resistentes a variações térmicas elevadas” recebeu três bolsas. A orientação é do professor Francisco Alves da Silva Júnior.
Também para o curso de Edificações, foram concedidas duas bolsas, para o projeto “Avaliação e adequação de habitações autoconstruídas no município de Quixadá/CE”. A orientação é da professora Karinna Ugulino.
Já no curso de Guia de Turismo, cada projeto foi contemplado com duas bolsas. “Monitoramento das transformações socioespaciais no centro urbano de Quixadá” tem orientação do professor Alexandre Queiroz Pereira. “Determinação do potencial para a captação de água de chuva na microrregião do Sertão Central cearense” é o tema da pesquisa orientada pelo professor Lucas da Silva.
As bolsas têm vigência de um ano. A participação dos alunos nas pesquisas começou mês passado e prossegue até novembro de 2011.
Confira a relação dos alunos bolsistas:
• Adail Alves Saraiva Junior (Edificações)
• Amanda Lúcia André Sobral (Turismo)
• Fiama Emanuela de Sousa Barbosa (Turismo)
• Francisca Ádila Ferreira Pereira (Turismo)
• Francisca Fabrícia Teodoro (Turismo)
• Karla Loiola Maia Amaral (Edificações)
• Priscila da Silva dos Santos (Edificações)
• Sóstenes Saraiva de Sales (Edificações)
• Thamara Kely de Sousa Fernandes (Edificações)
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Brinquedos da memória: o melhor da infância
Por Daniel Pinto Gomes* aos 27 anos
No primeiro dia a brincadeira: nascido em Fortaleza no dia 31 de dezembro de 1982 fui registrado natural de Sobral nascido em 01 de janeiro de 1983, sobre a confusão dos fatos, passo a lembrar-me de quando morávamos, eu, minha mãe e minha avó no edifício São Pedro, ou no castelo de Grayscow da Rua Ararius na Praia de Iracema. Era assim como chamávamos aquele prédio histórico tombado pelo município. As competições de comilança nas festas de aniversário, as desventuras e maus assombros naquele labirinto vertical, os pregos de elevador, as quedas pelas escadas em pega-pegas malucos, os esconderijos secretos e a literal quebra de vidraças.
Apertando campainha e saindo correndo; vi primos maiores jogando ovo em ônibus, fumando escondido; pregávamos peça sobre o grande Spartacus, puxávamos cabelos uns dos outros e refazíamos amizades. Tive fobia de ficar aprisionado entre porta e parede pelos primos mais velhos; brinquei de gato mia, de teatro e ali ganhei meu primeiro futebol de prego, depois construí vários outros.
Vi eclipse lunar nas escadarias da igreja. Falou-me os antigos de lobisomem, loura do banheiro, vi queimarem o Judas e montarem seu testamento, me apaixonei pelas mulheres mais velhas e tive medo da figura que era o Bobó. No Aterrinho da nossa atual prefeita, quebrei vidro de pipoqueiro desenvolvendo minhas lambanças no futebol, andei de bicicleta, brinquei de corrida de tampinha. Num clima de mistério cavávamos buraco pros outros cair. Dei mergulhos no mar do Espigão, de lá também, com minha mãe assisti uma competição de BodyBoard durante uma noite em que haviam grandes refletores clareando toda a praia.
Por aquelas épocas fui à Quixadá, lá, na “casa” do tio Douglas, eu brinquei com sapo, escutei os grilos, mergulhei em açude, deslizei pelas valas de lama na chuva. Lá me falaram de saci, da caipora, vi o bumba-meu-boi, a Galinha choca, brinquei de esconde-esconde nos currais, vi a brincadeira do pau cagado, conheci Tamarindo e tive medo do Valdo.
Na “casa” da tia Kátia e do tio Ivan, em Sobral, brinquei de bila e andei de bicicleta pela pracinha do quartel, lá também brinquei de Jô atrepa e paquerei com as meninas da minha idade, isso lá pelos doze treze anos. Quando mais pequeno, no chão de terra fizemos o enterro de um pinto, perambulei pelo mercado e fizeram-me medo do “véi” do saco. Também tomei banho no Buraco da “Véa”, na serra da Meruoca.
Viajei para o Crato na carroceria da D-20 do Tio Odécio, a diversão era cuspir pra cima e com certeza nos melamos. Durante a noite a viajem ficou bastante fria, mas o céu extremamente estrelado. Ainda, lembro-me que aprendi a fazer bola de meia vendo o trabalho do Tio Marcus.
Em Fortaleza, fomos morar no Álvaro Wayne quando uns 10 anos, larguei a mamadeira daí conheci outra “rua”, desta vez horizontal, ali brinquei de correr pelos telhados, de guerra de chiploc, de sardinha, de pular macaca, de futebol de botão, de chinela, de bola d’água, de esconde-esconde, de banco imobiliário, de castanha, de vôlei, de cruzamento, de cascudim, de soltar raia e correr atrás delas. Arranquei cabeça do dedo jogando bola na rua, criei peixes, pássaros e soldadinhos; assisti perplexo o assassinato de pássaros cometidos pelo Pito bom de mira na baladera; divulgamos a perna cabeluda, comíamos castanholas e quebrávamos as luzes dos postes.
Já adolescente roubei e colecionei cabeças de pito de ferro, de plástico, de pressão, de Scania e de tirar válvulas; também colecionei latas, num instante em que se exauria uma espécie de cultura de consumo. Mas, tomei muito banho de bica na chuva e desmontei e montei bicicleta várias vezes; não mexia somente em catraca. Fui aos jogos do Fortaleza, pulei na TUF; criávamos QG em casas abandonadas, brincávamos de gangue e saíamos pra pichar muro.
Enfim, relembrar esses momentos divertidos da infância é fazer uma espécie de passeio ao passado, que nos traz elementos de questionamento sobre o presente e o futuro de nossa vida. Estes trechos de memórias lúdicas permitem ainda algumas reflexões sobre os jogos infantis e a cultura lúdica, assim, poderia, para isto, atermo-nos sobre o impacto do avanço da tecnologia, sobre o processo de mudança das rotinas ocasionado pela violência, pelo trabalho, pelo acelerado processo de urbanização e pela massificada comercialização que provisoriamente assolam o tempo e espaço de lazer na contemporaneidade.
*Graduado em Educação Física (UECE), Especializando em Cultura folclórica aplicada (IFCE) e mestrando em Educação brasileira (UFC). Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE - Campi Quixadá) atuando nas seguintes áreas: Lazer, Cultura e Educação Física. danielpintogomes@hotmail.com
No primeiro dia a brincadeira: nascido em Fortaleza no dia 31 de dezembro de 1982 fui registrado natural de Sobral nascido em 01 de janeiro de 1983, sobre a confusão dos fatos, passo a lembrar-me de quando morávamos, eu, minha mãe e minha avó no edifício São Pedro, ou no castelo de Grayscow da Rua Ararius na Praia de Iracema. Era assim como chamávamos aquele prédio histórico tombado pelo município. As competições de comilança nas festas de aniversário, as desventuras e maus assombros naquele labirinto vertical, os pregos de elevador, as quedas pelas escadas em pega-pegas malucos, os esconderijos secretos e a literal quebra de vidraças.
Apertando campainha e saindo correndo; vi primos maiores jogando ovo em ônibus, fumando escondido; pregávamos peça sobre o grande Spartacus, puxávamos cabelos uns dos outros e refazíamos amizades. Tive fobia de ficar aprisionado entre porta e parede pelos primos mais velhos; brinquei de gato mia, de teatro e ali ganhei meu primeiro futebol de prego, depois construí vários outros.
Vi eclipse lunar nas escadarias da igreja. Falou-me os antigos de lobisomem, loura do banheiro, vi queimarem o Judas e montarem seu testamento, me apaixonei pelas mulheres mais velhas e tive medo da figura que era o Bobó. No Aterrinho da nossa atual prefeita, quebrei vidro de pipoqueiro desenvolvendo minhas lambanças no futebol, andei de bicicleta, brinquei de corrida de tampinha. Num clima de mistério cavávamos buraco pros outros cair. Dei mergulhos no mar do Espigão, de lá também, com minha mãe assisti uma competição de BodyBoard durante uma noite em que haviam grandes refletores clareando toda a praia.
Por aquelas épocas fui à Quixadá, lá, na “casa” do tio Douglas, eu brinquei com sapo, escutei os grilos, mergulhei em açude, deslizei pelas valas de lama na chuva. Lá me falaram de saci, da caipora, vi o bumba-meu-boi, a Galinha choca, brinquei de esconde-esconde nos currais, vi a brincadeira do pau cagado, conheci Tamarindo e tive medo do Valdo.
Na “casa” da tia Kátia e do tio Ivan, em Sobral, brinquei de bila e andei de bicicleta pela pracinha do quartel, lá também brinquei de Jô atrepa e paquerei com as meninas da minha idade, isso lá pelos doze treze anos. Quando mais pequeno, no chão de terra fizemos o enterro de um pinto, perambulei pelo mercado e fizeram-me medo do “véi” do saco. Também tomei banho no Buraco da “Véa”, na serra da Meruoca.
Viajei para o Crato na carroceria da D-20 do Tio Odécio, a diversão era cuspir pra cima e com certeza nos melamos. Durante a noite a viajem ficou bastante fria, mas o céu extremamente estrelado. Ainda, lembro-me que aprendi a fazer bola de meia vendo o trabalho do Tio Marcus.
Em Fortaleza, fomos morar no Álvaro Wayne quando uns 10 anos, larguei a mamadeira daí conheci outra “rua”, desta vez horizontal, ali brinquei de correr pelos telhados, de guerra de chiploc, de sardinha, de pular macaca, de futebol de botão, de chinela, de bola d’água, de esconde-esconde, de banco imobiliário, de castanha, de vôlei, de cruzamento, de cascudim, de soltar raia e correr atrás delas. Arranquei cabeça do dedo jogando bola na rua, criei peixes, pássaros e soldadinhos; assisti perplexo o assassinato de pássaros cometidos pelo Pito bom de mira na baladera; divulgamos a perna cabeluda, comíamos castanholas e quebrávamos as luzes dos postes.
Já adolescente roubei e colecionei cabeças de pito de ferro, de plástico, de pressão, de Scania e de tirar válvulas; também colecionei latas, num instante em que se exauria uma espécie de cultura de consumo. Mas, tomei muito banho de bica na chuva e desmontei e montei bicicleta várias vezes; não mexia somente em catraca. Fui aos jogos do Fortaleza, pulei na TUF; criávamos QG em casas abandonadas, brincávamos de gangue e saíamos pra pichar muro.
Enfim, relembrar esses momentos divertidos da infância é fazer uma espécie de passeio ao passado, que nos traz elementos de questionamento sobre o presente e o futuro de nossa vida. Estes trechos de memórias lúdicas permitem ainda algumas reflexões sobre os jogos infantis e a cultura lúdica, assim, poderia, para isto, atermo-nos sobre o impacto do avanço da tecnologia, sobre o processo de mudança das rotinas ocasionado pela violência, pelo trabalho, pelo acelerado processo de urbanização e pela massificada comercialização que provisoriamente assolam o tempo e espaço de lazer na contemporaneidade.
*Graduado em Educação Física (UECE), Especializando em Cultura folclórica aplicada (IFCE) e mestrando em Educação brasileira (UFC). Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE - Campi Quixadá) atuando nas seguintes áreas: Lazer, Cultura e Educação Física. danielpintogomes@hotmail.com
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