“Somente pode ter a capacidade de bem dizer quem é capaz de bem pensar.”¹
Por Nicolai Henrique Dianim Brion²
É difícil imaginar que os repentistas sertanejos tenham alguma ligação com a cultura sarracena. E, no entanto, têm. As raízes dos poetas-violeiros do semi-árido estão fincadas na península ibérica de doze séculos atrás, dominada pelos mouros, em especial a Espanha.
Mas como atribuir a uma comunidade que não participou efetivamente do processo de colonização do nordeste brasileiro as origens de uma das formas mais legítimas de manifestação cultural de seus artistas populares?
Tal fato pode ser explicado pelos 800 anos de domínio político sobre nossos colonizadores, isto é, os colonizadores do continente americano: espanhóis e portugueses. Um período tão significativo de ocupação gerou frutos importantes, em diversas áreas do conhecimento humano, embora os iberos tenham tentado dirimir a importância moura após sua expulsão da Europa.
Todavia, pesquisas aprofundadas sobre o tema demonstram, com o auxílio de sólidos argumentos, que não há como negar a preponderância da cultura mourisca na arte do repente. De início, apontamos o dom e o gosto pelo improviso, típicos dos beduínos. Eles versejavam sobre o concreto, o cotidiano, quer fosse o sol escaldante do deserto, o frio congelante da noite, as batalhas sangrentas travadas ou simplesmente as vértebras de seus camelos.
Em segundo lugar, os estudos das tradições artísticas sertanejas costumam fazer referência às influências do movimento trovadoresco, surgido durante o Renascimento, e não percebem, contudo, o quanto a cultura muçulmana foi determinante para o surgimento do próprio trovadorismo. Isso se torna claro quando aprendemos que os árabes, assim como os trovadores da renascença: faziam uso do canto monódico, acompanhado por instrumentos; utilizavam o recurso das rimas; exaltavam o amor cortês; e eram elevados a altos níveis sociais.
Poderíamos ainda descrever as contribuições dos sarracenos para o enriquecimento dos instrumentos musicais europeus, mais uma prova da influência daquele povo, que pode ser hoje sentida pelo repentista nordestino, mesmo que não tenha plena consciência disso.
A verdade é que temos uma ampla dívida para com a comunidade árabe, em muitos segmentos, não apenas no que diz respeito à cultura. Por ora, quando ouvir a beleza da poesia dos trovadores e repentistas, seja nas ruas e praças, seja em festivais regionais ou internacionais, lembre-se de agradecer também ao oriente.
شكرا (Shucran)
1. Luis Soler, autor de “Origens árabes no folclore do sertão brasileiro”, livro no qual o presente texto se baseia.
2. Nicolai Henrique Dianim Brion é especialista em linguística e professor de língua inglesa do IFCE, campus de Quixadá.
Com enfoque no contexto SEMIÁRIDO cearense, este blog tem o objetivo de divulgar as idéias, as realizações, as pesquisas e as demais atividades do Grupo de Pesquisa formado pelos professores das ciências sociais, sociais aplicadas e ambientais do IFCE (Campus Quixadá).
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Planejamento Regional para o Sertão Central?
Escrito por Alexandre Queiroz Pereira
Na aurora do século XXI, o aglomerado regional polarizado por Quixadá demonstra, assim como na maioria dos arranjos desta natureza no Ceará, fragilidade e altos índices de dependência do entorno em relação ao polo. Esse modelo de planejamento mina a possibilidade de uma integração a partir do compartilhamento de funções e inviabiliza trocas intermunicipais mais equilibradas. Um ciclo vicioso se consolida: os municípios satélites não se dinamizam pela concentração de funções do polo, e concomitantemente, o polo concentra mais funções porque atrai os fluxos dos demais municípios. O que salta como possível solução para tais questões são políticas públicas baseadas na distribuição de funções complementares entre os referidos municípios.
Mudança recente no perfil regional se deve à concentração em Quixadá de serviços educacionais de nível superior, técnico e tecnológico. Além do campus avançado da Universidade Estadual do Ceará (FECLESQ) e dos campi da Faculdade Católica Rainha do Sertão, atualmente, na sede municipal instalaram-se os campi da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE). Em alguns discursos e propagandas locais, a Cidade aparece com uma função especializada: a “cidade universitária do sertão”. De fato, estas instituições geram um fluxo migratório de professores e alunos que se instalam sazonal e definitivamente na cidade. Estes novos sujeitos requerem um conjunto de novos serviços e mercadorias que diversificam a base econômica e cultural da cidade e da região.
Seria, a partir deste momento, uma nova virada socioeconômica e cultural em Quixadá, assim como acontecera à época da construção do Cedro? Todavia, mais uma vez as políticas públicas preferem a concentração à complementaridade de funções intermunicipais. Vale ressaltar que quanto mais se concentram funções, atraindo maior contingente populacional (permanente ou não), maior demanda por serviços sociais são criados, causando impactos de maneira a sobrecarregar as já precárias condições infraestruturas intraurbanas, sociais e ambientais existentes.
Na aurora do século XXI, o aglomerado regional polarizado por Quixadá demonstra, assim como na maioria dos arranjos desta natureza no Ceará, fragilidade e altos índices de dependência do entorno em relação ao polo. Esse modelo de planejamento mina a possibilidade de uma integração a partir do compartilhamento de funções e inviabiliza trocas intermunicipais mais equilibradas. Um ciclo vicioso se consolida: os municípios satélites não se dinamizam pela concentração de funções do polo, e concomitantemente, o polo concentra mais funções porque atrai os fluxos dos demais municípios. O que salta como possível solução para tais questões são políticas públicas baseadas na distribuição de funções complementares entre os referidos municípios.
Mudança recente no perfil regional se deve à concentração em Quixadá de serviços educacionais de nível superior, técnico e tecnológico. Além do campus avançado da Universidade Estadual do Ceará (FECLESQ) e dos campi da Faculdade Católica Rainha do Sertão, atualmente, na sede municipal instalaram-se os campi da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE). Em alguns discursos e propagandas locais, a Cidade aparece com uma função especializada: a “cidade universitária do sertão”. De fato, estas instituições geram um fluxo migratório de professores e alunos que se instalam sazonal e definitivamente na cidade. Estes novos sujeitos requerem um conjunto de novos serviços e mercadorias que diversificam a base econômica e cultural da cidade e da região.
Seria, a partir deste momento, uma nova virada socioeconômica e cultural em Quixadá, assim como acontecera à época da construção do Cedro? Todavia, mais uma vez as políticas públicas preferem a concentração à complementaridade de funções intermunicipais. Vale ressaltar que quanto mais se concentram funções, atraindo maior contingente populacional (permanente ou não), maior demanda por serviços sociais são criados, causando impactos de maneira a sobrecarregar as já precárias condições infraestruturas intraurbanas, sociais e ambientais existentes.
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