Por Aterlane Martins
Em texto anterior escrevi, apresentando um breve panorama da política oficial de preservação do patrimônio cultural no Brasil, destacando as transformações ocorridas desde antiga noção de patrimônio histórico e artístico à sua conotação atual, cujo foco ampliado baseia-se na noção antropológica de cultura, portanto denominado-o patrimônio cultural, mais amplo e integrado conceitualmente.
No presente texto apresento mais particularmente alguns aspectos dos bens materiais buscando relacioná-los, em sua trajetória e no contexto contemporâneo, às políticas públicas de patrimônio.
Os bens de “pedra e cal’’, assim referidos pela socióloga Maria Cecília Londres Fonseca, referem-se comumente aos bens móveis e imóveis e podem ser identificados entres outros como edifícios civis ou religiosos, públicos e privados (residências, templos, engenhos, cemitérios, teatros, casas de câmara e cadeia etc.), monumentos (estátuas, obeliscos, bustos etc.), objetos (de arte, de culto, utilitários, decorativos, móveis etc.), bibliotecas e arquivos (conjuntos documentais de valor histórico ou artístico), monumentos naturais e paisagens (jardins, montanhas, rios, reservas ecológicas etc.), bem como artefatos arqueológicos ou paleontológicos (urnas funerárias indígenas, ruínas de construções, fósseis etc.), entre outros, desde que sejam assim considerados pela sociedade e devidamente “consagrados” através do tombamento.
Desde 1937 até então, estes bens são protegidos pelo instrumento jurídico do Tombamento. Contraditório em si, por ter o poder de cessar o direito à propriedade privada em detrimento do “interesse social”, este instrumento legal foi inicialmente utilizado com a força “policialesca” que lhe é própria – mas que verificou-se inapropriada. Esta foi a marca conflituosa que durante muitas décadas figurou no imaginário social sobre a preservação do patrimônio cultural e sobre a instituição que a executa, o IPHAN.
Apenas na década de 1970, na gestão de Aloísio Magalhães no IPHAN, as práticas de preservação buscaram uma real aproximação com a comunidade. Assim o foi nos exemplos dos Seminários realizados em Ouro Preto e Olinda quando pela primeira vez a população local foi ouvida e pôde efetivamente participar da política preservação do seu patrimônio cultural.
Por mais paradoxal que possa parecer esta ainda é uma situação recorrente quando, sobretudo o poder público municipal, inicia sua prática preservacionista. Além das “novas políticas” darem continuidade à prática impositiva da preservação que afasta a população deste bens e impede os eu uso social, é comum percebermos que a sociedade também guarda esse imaginário e o reproduz.
Embora o instrumento jurídico de proteção, o tombamento, permaneça o mesmo, as ações dele decorrentes mudaram acompanhando as transformações sócio-históricas que inseriram um novo entendimento sobre a proteção e a gestão dos bens culturais tombados, ou seja, uma preservação onde a sociedade participa efetivamente usando e ressignificando estes espaços.
Em exercício de pesquisa, recentemente levado a cabo com os alunos da disciplina Cidadania e Patrimônio do curso técnico em Guia de Turismo do IFCE, pude constatar algumas destas permanências no que tange a compreensão sobre os bens materiais e sua proteção, particularmente na cidade de Quixadá. Contudo, algumas boas apropriações das práticas contemporâneas e o desejo de participação no processo preservacionista foram demonstrados pelos referidos alunos. Este, porém, é assunto para um texto seguinte.
Com enfoque no contexto SEMIÁRIDO cearense, este blog tem o objetivo de divulgar as idéias, as realizações, as pesquisas e as demais atividades do Grupo de Pesquisa formado pelos professores das ciências sociais, sociais aplicadas e ambientais do IFCE (Campus Quixadá).
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Imagem e Turismo no Ceará
Por Eduardo Lúcio G. Amaral
Identidade é uma construção intencional, de conteúdo ideológico, que busca maiores ou menores conexões com a cultura. Sabemos que nem tudo que pertence ao universo da cultura interessa ser apropriado pelo discurso da identidade. Além de intencional, a idéia de Identidade também guarda um sentido instrumental: identidade que serve para um determinado propósito.
Não há como desvincular o estudo dos discursos acerca da Identidade (no caso, da identidade cearense) de uma imagética a ela relacionada. O discurso da identidade cearense surge na literatura e na historiografia, por volta da década de 1860 e, apesar das muitas reelaborações que vem sofrendo ao longo das décadas, guarda um fundo comum. Esse fundo comum está ligado à permanência de uma imagética relacionada ao mundo natural e à civilização sertaneja daí resultante.
Desde sempre, a literatura e a historiografia evocam um Ceará impregnado de natureza inóspita e hostil. Dela resulta uma civilização em que o homem tem, não somente que lidar, mas que lutar contra a natureza. Ele é, em última instância, visto como um resistente, “um forte”, diante da natureza ameaçadora.
Entretanto, por mais que envide esforços para essa resistência, o homem cearense (e sertanejo, e nordestino) nem sempre alcança o domínio completo sobre a natureza. Aliás, muito pelo contrário. Quando a estiagem, a seca, irrompe em toda a sua fúria, a desgraça humana se revela em toda a sua plenitude. É desta “calamidade climática” que nasce o imaginário brasileiro acerca do Ceará. Da mesma maneira, é este o Ceará que os cearenses divulgaram para o sul do país.
As imagens de miséria, abandono, fuga, desolação povoam a cultura brasileira quando se trata de falar do Nordeste e do sertão. Embora o Nordeste e o Ceará não sejam somente isto, o imaginário popular tem dificuldades de imaginar um outro Nordeste e um outro Ceará que não fossem somente isto.
A partir de meados da década de 1980, portanto há menos de trinta anos, a indústria do turismo estabeleceu-se definitivamente no Ceará. Como o turismo lida com bens de natureza simbólica, como projetar o sucesso do negócio num lugar impregnado por imagens negativas, de miséria e seca, tão vivas no imaginário do brasileiro médio?
Necessário foi criar uma nova identidade para o Ceará. Mas, dado estar fortemente criado o vínculo com a imagética das secas, criou-se uma nova estratégia: desvincular “Fortaleza” do “Ceará”.
A imagem de Fortaleza foi positivada através das várias campanhas publicitárias nacionais. Ao invés de capital da seca e da miséria, transformou-se numa cidade paradisíaca caribenha, com um povo afetuoso (indolente?), ingênuo (o mito do bom selvagem?) diante de uma natureza dócil e malemolente, crivada de coqueiros e ornamentada por um mar de eterno azul.
No próximo post vamos procurar compreender as repercussões desta construção ideológica no curso do planejamento do turismo no Ceará e, em última instância, na própria situação de Fortaleza e do Ceará perante o imaginário brasileiro.
Identidade é uma construção intencional, de conteúdo ideológico, que busca maiores ou menores conexões com a cultura. Sabemos que nem tudo que pertence ao universo da cultura interessa ser apropriado pelo discurso da identidade. Além de intencional, a idéia de Identidade também guarda um sentido instrumental: identidade que serve para um determinado propósito.
Não há como desvincular o estudo dos discursos acerca da Identidade (no caso, da identidade cearense) de uma imagética a ela relacionada. O discurso da identidade cearense surge na literatura e na historiografia, por volta da década de 1860 e, apesar das muitas reelaborações que vem sofrendo ao longo das décadas, guarda um fundo comum. Esse fundo comum está ligado à permanência de uma imagética relacionada ao mundo natural e à civilização sertaneja daí resultante.
Desde sempre, a literatura e a historiografia evocam um Ceará impregnado de natureza inóspita e hostil. Dela resulta uma civilização em que o homem tem, não somente que lidar, mas que lutar contra a natureza. Ele é, em última instância, visto como um resistente, “um forte”, diante da natureza ameaçadora.
Entretanto, por mais que envide esforços para essa resistência, o homem cearense (e sertanejo, e nordestino) nem sempre alcança o domínio completo sobre a natureza. Aliás, muito pelo contrário. Quando a estiagem, a seca, irrompe em toda a sua fúria, a desgraça humana se revela em toda a sua plenitude. É desta “calamidade climática” que nasce o imaginário brasileiro acerca do Ceará. Da mesma maneira, é este o Ceará que os cearenses divulgaram para o sul do país.
As imagens de miséria, abandono, fuga, desolação povoam a cultura brasileira quando se trata de falar do Nordeste e do sertão. Embora o Nordeste e o Ceará não sejam somente isto, o imaginário popular tem dificuldades de imaginar um outro Nordeste e um outro Ceará que não fossem somente isto.
A partir de meados da década de 1980, portanto há menos de trinta anos, a indústria do turismo estabeleceu-se definitivamente no Ceará. Como o turismo lida com bens de natureza simbólica, como projetar o sucesso do negócio num lugar impregnado por imagens negativas, de miséria e seca, tão vivas no imaginário do brasileiro médio?
Necessário foi criar uma nova identidade para o Ceará. Mas, dado estar fortemente criado o vínculo com a imagética das secas, criou-se uma nova estratégia: desvincular “Fortaleza” do “Ceará”.
A imagem de Fortaleza foi positivada através das várias campanhas publicitárias nacionais. Ao invés de capital da seca e da miséria, transformou-se numa cidade paradisíaca caribenha, com um povo afetuoso (indolente?), ingênuo (o mito do bom selvagem?) diante de uma natureza dócil e malemolente, crivada de coqueiros e ornamentada por um mar de eterno azul.
No próximo post vamos procurar compreender as repercussões desta construção ideológica no curso do planejamento do turismo no Ceará e, em última instância, na própria situação de Fortaleza e do Ceará perante o imaginário brasileiro.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Alunos do IFCE Quixadá ganham nove bolsas da Funcap/CNPq
Os alunos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) – campus de Quixadá foram contemplados com nove bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio de edital da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
As bolsas foram concedidas na categoria Iniciação Científica Júnior, com o objetivo de despertar nos estudantes o interesse por desenvolver atividades de pesquisa e extensão na área de ciência.
Foram contemplados quatro projetos, dos cursos de Edificações e Guia de Turismo. Na primeira área, o projeto “Concreto com adição de resíduo de borracha de pneu para aplicações expostas ao ambiente, resistentes a variações térmicas elevadas” recebeu três bolsas. A orientação é do professor Francisco Alves da Silva Júnior.
Também para o curso de Edificações, foram concedidas duas bolsas, para o projeto “Avaliação e adequação de habitações autoconstruídas no município de Quixadá/CE”. A orientação é da professora Karinna Ugulino.
Já no curso de Guia de Turismo, cada projeto foi contemplado com duas bolsas. “Monitoramento das transformações socioespaciais no centro urbano de Quixadá” tem orientação do professor Alexandre Queiroz Pereira. “Determinação do potencial para a captação de água de chuva na microrregião do Sertão Central cearense” é o tema da pesquisa orientada pelo professor Lucas da Silva.
As bolsas têm vigência de um ano. A participação dos alunos nas pesquisas começou mês passado e prossegue até novembro de 2011.
Confira a relação dos alunos bolsistas:
• Adail Alves Saraiva Junior (Edificações)
• Amanda Lúcia André Sobral (Turismo)
• Fiama Emanuela de Sousa Barbosa (Turismo)
• Francisca Ádila Ferreira Pereira (Turismo)
• Francisca Fabrícia Teodoro (Turismo)
• Karla Loiola Maia Amaral (Edificações)
• Priscila da Silva dos Santos (Edificações)
• Sóstenes Saraiva de Sales (Edificações)
• Thamara Kely de Sousa Fernandes (Edificações)
As bolsas foram concedidas na categoria Iniciação Científica Júnior, com o objetivo de despertar nos estudantes o interesse por desenvolver atividades de pesquisa e extensão na área de ciência.
Foram contemplados quatro projetos, dos cursos de Edificações e Guia de Turismo. Na primeira área, o projeto “Concreto com adição de resíduo de borracha de pneu para aplicações expostas ao ambiente, resistentes a variações térmicas elevadas” recebeu três bolsas. A orientação é do professor Francisco Alves da Silva Júnior.
Também para o curso de Edificações, foram concedidas duas bolsas, para o projeto “Avaliação e adequação de habitações autoconstruídas no município de Quixadá/CE”. A orientação é da professora Karinna Ugulino.
Já no curso de Guia de Turismo, cada projeto foi contemplado com duas bolsas. “Monitoramento das transformações socioespaciais no centro urbano de Quixadá” tem orientação do professor Alexandre Queiroz Pereira. “Determinação do potencial para a captação de água de chuva na microrregião do Sertão Central cearense” é o tema da pesquisa orientada pelo professor Lucas da Silva.
As bolsas têm vigência de um ano. A participação dos alunos nas pesquisas começou mês passado e prossegue até novembro de 2011.
Confira a relação dos alunos bolsistas:
• Adail Alves Saraiva Junior (Edificações)
• Amanda Lúcia André Sobral (Turismo)
• Fiama Emanuela de Sousa Barbosa (Turismo)
• Francisca Ádila Ferreira Pereira (Turismo)
• Francisca Fabrícia Teodoro (Turismo)
• Karla Loiola Maia Amaral (Edificações)
• Priscila da Silva dos Santos (Edificações)
• Sóstenes Saraiva de Sales (Edificações)
• Thamara Kely de Sousa Fernandes (Edificações)
Assinar:
Postagens (Atom)