Por Nicolai Dianim Brion
Antes de proceder à leitura do texto do professor Gilvan Müller de Oliveira (2000), não imaginava a dimensão do processo de gloticídio que tem sido parte da história deste país. Como cidadão brasileiro, posso afirmar que conheço os principais fatos ocorridos de 1500 até os presentes dias do século XXI. Entretanto, detalhes dos bastidores políticos que autorizaram, e de fato executaram, o extermínio da língua e da cultura – sem falar dos cidadãos – indígenas e estrangeiros, não nos foram ensinados nas escolas e universidades. Falhamos ambas as vezes: ao realizar e ao camuflar.
Refletindo sobre tudo aquilo que o autor traz ao nosso pensar, infelizmente percebo preocupantes semelhanças em outros campos culturais, alguns deles mais diretamente ligados à linguística, outros nem tanto. Analisemos dois deles.
Ao vasculhar a internet por notícias, como faço costumeiramente, deparei-me com a seguinte, na coluna Digital, do jornal O Globo, “Projeto de lei pretende proibir videogames ofensivos no país”. No corpo do texto, aprendemos que o excelentíssimo senador Valdir Raupp de Matos (PMDB/RO) deseja aprovar lei que qualifica como crime a importação, fabricação, distribuição e comercialização de jogos violentos ou, segundo ele, jogos “ofensivos aos costumes ou às tradições dos povos”.
Minha maior curiosidade é saber quando os deputados e senadores, ilustres membros que elegemos para nos representar, vão deixar de fazê-lo de maneira tão ineficiente. Estúpida até, eu diria. Um quer proibir o improibível (Aldo Rebelo, deputado federal pelo PC do B/SP, com sua lei antiestrangeirismos), agora outro quer que o Estado desempenhe o papel educativo que deveria caber aos pais e mães deste país.
Às vezes tenho a sensação de que querem controlar tudo, unificar tudo. Senhores legisladores, é hora de acordar. Jogar ou não jogar um jogo violento é uma escolha pessoal de cada um. Até onde eu sei, matar uma dúzia de alienígenas ou guerrilheiros num dispositivo que simula uma realidade completamente alternativa não constitui crime algum. Ou pelo menos não constituía, na época em que eu cresci jogando games.
Os jogos eletrônicos, em sua maioria, já saem de fábrica com advertências em relação ao conteúdo, se próprio ou impróprio para uma determinada faixa etária. Cabe ao indivíduo, ou aos seus responsáveis, no caso de menor de idade, decidir se aquele determinado game deve ou não ser jogado. Além disso, caso tal proibição se torne realidade, ela nada mais será do que um novo incentivo à pirataria. Lastimável.
Outra semelhança que imediatamente povoou meus pensamentos, durante a leitura do texto de Oliveira (2000), foi o nosso polêmico acordo ortográfico. Quer dizer, nem tão polêmico assim. Se tivesse sido, talvez ainda estivéssemos debatendo a seu respeito, e não decorando suas novas regras. Como na progressiva eliminação de nações e línguas indígenas, guardadas as devidas proporções, poucas vozes ecoaram contra mais um processo de homogeneização de cunho essencialmente político.
A política do Estado brasileiro é deveras surpreendente. Fico aqui pensando, com meus botões, qual será o próximo utilíssimo Projeto de Lei que algum deputado ou senador, em sua ociosidade criativa, irá propor. Já que o país, embora notadamente heterogêneo em termos religiosos, reconheceu em outubro do ano passado o estatuto jurídico da Igreja Católica, em acordo feito com o Vaticano, concedendo, entre outros privilégios, imunidade tributária à Igreja, não seria então a hora de pensarmos num Estado também homogêneo religiosamente? Fica a dica para os nobres parlamentares...
Com enfoque no contexto SEMIÁRIDO cearense, este blog tem o objetivo de divulgar as idéias, as realizações, as pesquisas e as demais atividades do Grupo de Pesquisa formado pelos professores das ciências sociais, sociais aplicadas e ambientais do IFCE (Campus Quixadá).
sexta-feira, 28 de maio de 2010
segunda-feira, 17 de maio de 2010
A Linguística nas Escolas
Por Nicolai H. Dianim Brion
É difícil definir o papel nas escolas de uma ciência cuja origem é relativamente recente, principalmente quando comparada às ciências clássicas, como a matemática ou a filosofia. Quase tudo em linguística ainda tem aquele cheiro de novo, especialmente em alguns campos de estudo a ela associados, como é o caso da sociolinguística, da psicolinguística e da neurolinguística.
As pesquisas mais antigas em algumas dessas áreas datam da década de 1940, ou seja, ainda estamos engatinhando no que diz respeito às amplas possibilidades investigativas que se colocam à nossa frente. Mesmo a linguística de forma tradicional, quer dizer, dissociada de qualquer outra ciência humana ou biológica, tem pouco mais de um século de vida.
Se ainda não há consenso entre os educadores sobre qual deve ser o papel hoje, nas escolas, de uma ciência milenar, como a filosofia, ou ainda, se a filosofia deve ou não ter algum papel nas escolas, o que dizer sobre a linguística?
O estudo da língua portuguesa no Brasil, tradicionalmente, sempre foi muito gramático, muito normativo. Até os dias de hoje sabemos que isso é prática comum. Diversos professores, notavelmente os mais antigos, ainda querem abordar a língua através da gramática normativa. Desejam que seus alunos decorem regras que, aos seus olhos, não fazem nenhum sentido, e que façam centenas de exercícios completamente descontextualizados. E quem pode culpá-los? Não foi assim que eles aprenderam?
Mudanças são com frequência motivo de desconforto, podendo até gerar traumas, se não forem bem planejadas e gradualmente implementadas. O professor “gramaticalista” recusa-se a conhecer novas teorias basicamente por dois motivos: por não dispor de tempo e/ou incentivo para buscar se inteirar das mais novas pesquisas em sua área do saber, ou, simplesmente, por não estar inclinado a alterar sua forma de trabalho, fruto de puro comodismo.
Os professores da nova geração, isto é, aqueles que tiveram oportunidade de estudar linguística mais a fundo ao longo dos quatro ou cinco anos de faculdade, costumam ser mais abertos e veem a necessidade de novas abordagens ao ensino de língua portuguesa nas escolas, segundo uma visão mais analítica e contextual, própria da linguística.
Embora esse seja um grande avanço, confessar a necessidade de mudança não é o bastante. O grande desafio reside em como promover alterações significativas no que está posto, ou, em outras palavras, como transportar o riquíssimo universo das teorias, debates e pesquisas mais recentes na área da linguagem, para a nossa prática docente, de modo que a fascinação e o interesse que sentimos ao ocupar as carteiras das universidades possam também fazer parte da vida dos nossos alunos.
Por que não trabalhar leitura, compreensão e produção escrita sob o enfoque da teoria dos Gêneros Textuais, de Marcuschi? Ou pela ótica da teoria da Tipologia Textual, de Travaglia? Por que não permitir que nossos alunos ao menos saibam que essas teorias existem e o que defendem? Por que não promover um momento de debate, para que então tenham condições de optar pela que melhor atende às suas necessidades?
Estudos como esses certamente contribuiriam de maneira muito mais eficaz para a formação de futuros cidadãos conscientes, críticos e aptos a enfrentar os múltiplos e complicados desafios da vida moderna, do que saber a classe gramatical de uma lista de palavras ou ecoar pelos seus anos de vida o som do preconceito linguístico.
É difícil definir o papel nas escolas de uma ciência cuja origem é relativamente recente, principalmente quando comparada às ciências clássicas, como a matemática ou a filosofia. Quase tudo em linguística ainda tem aquele cheiro de novo, especialmente em alguns campos de estudo a ela associados, como é o caso da sociolinguística, da psicolinguística e da neurolinguística.
As pesquisas mais antigas em algumas dessas áreas datam da década de 1940, ou seja, ainda estamos engatinhando no que diz respeito às amplas possibilidades investigativas que se colocam à nossa frente. Mesmo a linguística de forma tradicional, quer dizer, dissociada de qualquer outra ciência humana ou biológica, tem pouco mais de um século de vida.
Se ainda não há consenso entre os educadores sobre qual deve ser o papel hoje, nas escolas, de uma ciência milenar, como a filosofia, ou ainda, se a filosofia deve ou não ter algum papel nas escolas, o que dizer sobre a linguística?
O estudo da língua portuguesa no Brasil, tradicionalmente, sempre foi muito gramático, muito normativo. Até os dias de hoje sabemos que isso é prática comum. Diversos professores, notavelmente os mais antigos, ainda querem abordar a língua através da gramática normativa. Desejam que seus alunos decorem regras que, aos seus olhos, não fazem nenhum sentido, e que façam centenas de exercícios completamente descontextualizados. E quem pode culpá-los? Não foi assim que eles aprenderam?
Mudanças são com frequência motivo de desconforto, podendo até gerar traumas, se não forem bem planejadas e gradualmente implementadas. O professor “gramaticalista” recusa-se a conhecer novas teorias basicamente por dois motivos: por não dispor de tempo e/ou incentivo para buscar se inteirar das mais novas pesquisas em sua área do saber, ou, simplesmente, por não estar inclinado a alterar sua forma de trabalho, fruto de puro comodismo.
Os professores da nova geração, isto é, aqueles que tiveram oportunidade de estudar linguística mais a fundo ao longo dos quatro ou cinco anos de faculdade, costumam ser mais abertos e veem a necessidade de novas abordagens ao ensino de língua portuguesa nas escolas, segundo uma visão mais analítica e contextual, própria da linguística.
Embora esse seja um grande avanço, confessar a necessidade de mudança não é o bastante. O grande desafio reside em como promover alterações significativas no que está posto, ou, em outras palavras, como transportar o riquíssimo universo das teorias, debates e pesquisas mais recentes na área da linguagem, para a nossa prática docente, de modo que a fascinação e o interesse que sentimos ao ocupar as carteiras das universidades possam também fazer parte da vida dos nossos alunos.
Por que não trabalhar leitura, compreensão e produção escrita sob o enfoque da teoria dos Gêneros Textuais, de Marcuschi? Ou pela ótica da teoria da Tipologia Textual, de Travaglia? Por que não permitir que nossos alunos ao menos saibam que essas teorias existem e o que defendem? Por que não promover um momento de debate, para que então tenham condições de optar pela que melhor atende às suas necessidades?
Estudos como esses certamente contribuiriam de maneira muito mais eficaz para a formação de futuros cidadãos conscientes, críticos e aptos a enfrentar os múltiplos e complicados desafios da vida moderna, do que saber a classe gramatical de uma lista de palavras ou ecoar pelos seus anos de vida o som do preconceito linguístico.
domingo, 2 de maio de 2010
Quixadá: a cidade e sua natureza
Escrito por Alexandre Queiroz Pereira
Quixadá, situado no Sertão Central do Ceará, apresenta-se como cidade a partir do século XIX. Em meio à organização do seu traçado urbano, a cidade se envolve na formação de seu exótico e exuberante relevo. Marcada pelas feições ligeiramente planas da depressão sertaneja, Quixadá apresenta formas diferenciadas. Os processos produtores das formas terrestres, tanto internos como externos, esculpiram conjuntos de afloramentos rochosos de médias e elevadas altitudes que podem chegar a mais de 650 metros. Os Inselberg, denominação científica para os populares monólitos, integram-se a paisagem dos aglomerados urbanos distribuídos por todo o território municipal.
Da Sede, com seu patrimônio histórico, aos distritos mais distantes, os grandiosos paredões graníticos exibem-se com formas que levam o observador a viajar na imaginação. São exemplos a galinha choca, repousando e admirando, eternamente, a bela e centenária barragem do Cedro; a Pedra do Cruzeiro que oferece a todos uma visão panorâmica do Sertão cearense; assim como o morro do Urucum que sedia o Santuário Nossa Senhora Rainha do Sertão, lugar de paz e reflexão espiritual. Os monólitos são tantos e tão variados que no suspiro de criatividade pode reinventar e redescobrir aparências nunca imaginadas.
A Caatinga, às vezes densa, às vezes esparsa, promove junto a Cidade e aos Monólitos um habitat de seres vegetais e animais. Os vegetais demonstram firmeza e adaptação ao longo da estiagem, mas, verdejantes tornam-se ao sinal das primeiras gotas do céu. Os animais, lagartos, mamíferos e aves, encantam os olhares e ouvidos do espectador atento.
Os vários dias ensolarados e a intensidade da energia solar, proporcionada pelo regime do clima semi-árido, interagem com a atmosfera e com as condições geomorfológicas produzindo condições propícias tanto para as trilhas e caminhadas como também para a prática de esportes radicais nas alturas.
Em Quixadá, o Homem pode além de admirar a imensidão da natureza, reencontrá-la em si mesmo. Sem esquecer que além dos monólitos e da caatinga, Quixadá é feita da história viva de milhares de sertanejos.
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